quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Proteção das Terras Indígenas em “xeque”


Abandonados pelo poder público e pelas entidades que deveriam garantir seus direitos, indígenas assumem as trincheiras de batalha para garantir a preservação suas terras, contra a ação de madeireiros ilegais
No final de agosto o Governo divulgou, depois de mais de três anos de silêncio, os dados da degradação florestal na Amazônia. Superficialmente conclui-se que houve uma queda geral dos índices. Mas uma análise mais apurada aponta para um fato preocupante: 30% do território degradado entre 2007 e 2013 estava localizado dentro de áreas protegidas por lei. Curioso, entretanto, é o fato de que 84% destas áreas estavam localizadas dentro de Terras Indígenas (TI).
O ano passado foi especialmente ruim para os índios brasileiros, com a afirmação de políticas e direcionamentos que contribuíram ainda mais para a deterioração de seus direitos, como a interrupção de demarcações de novas Tis, o abandono dos órgãos responsáveis por resguardar seus interesses, a crescente no número de conflitos por terra, além da irrefreável pressão exercida pela exploração ilegal de madeira.
A criação de áreas protegidas, como Unidades de Conservação e Tis, é um dos mecanismos mais eficientes criados pelo governo para garantir a estabilidade florestal, como recentemente comprovado pelo World Resources Institute. Outro papel fundamental da delimitação destas regiões é proteger as populações locais.
Mas segundo o Degrad (Mapeamento da Degradação Florestal na Amazônia Brasileira), que detecta indícios de degradação e é utilizado como suporte à fiscalização e controle deste processo, entre 2007 e 2013 quase 26% da degradação ocorreu dentro de Tis. Ou seja, neste período foram perdidos 2,630 milhões de hectares de floresta Amazônica que, em tese, deveriam ser protegidas.
Os maiores focos de degradação apontados pelo Degrad estão localizados no arco do desmatamento, principalmente nos estados do Maranhão, Mato Grosso e Pará.
Os maiores focos de degradação foram identificados ao longo do Arco do Desmatamento, principalmente nos estados do Maranhão, Pará e Mato Grosso (© Greenpeace)
Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2013, das 34 pessoas assassinadas no campo, 38% eram índios. No mesmo ano, entre as 829 vítimas de violência, como tentativas de assassinato, ameaças, prisões, intimidações e outras barbáries, quase 30% eram indígenas. Além disso, de acordo com dados recentes da ONU, o número de índios detidos no Brasil cresceu 33% nos últimos anos. Infelizmente, em 2014 não será diferente, devido ao atual cenário, marcado por mais conflitos violentos relacionados à madeira.
A espera de (mais) uma morte
A falta de credibilidade nas autoridades, que deveriam garantir os direitos e a segurança dos povos tradicionais, tem feito com que grupos indígenas entrem em estado de guerra na defesa de suas terras, a exemplo do que vem acontecendo com os Ka’apor da Terra Indígena Alto Turiaçu, no Maranhão.
Apenas um dia após uma Audiência Pública realizada no Senado, cujo tema central foi a relação da exploração ilegal de madeira com a violência no campo, ocorreu no Maranhão uma operação organizada pelos indígenas com a finalidade de coibir ações recorrentes de madeireiros dentro de suas terras.
A TI Alto Turiaçu é o maior remanescente florestal do que um dia foi a Amazônia Maranhense. Apesar de possuir 30 anos de existência, sua população sofre com ameaças constantes. Até 2012 a TI já havia perdido 44 mil hectares (8,07% do total de sua área), colocando-a na 5ª posição entre as Tis mais desmatadas na Amazônia. Só em 2013 outros 1.113 hectares de floresta desapareceram do mapa. Em termos de degradação, os dados absolutos para o período de 2007-2013 chegou a 5.733 hectares.
Degradação total no Mosaico de áreas Protegidas no período de 2007-2013 (37995 hectares): TI Alto Rio Guamá/PA (14416 ha); TI Ka’apor/MA (5773 ha); TI Awá/MA (714 ha); TI Caru/MA (690 ha) e Rebio Gurupi/MA (16442 ha) (© Greenpeace)

Apesar de denunciada desde 1979 pelo Anthropology Resource Center (Vol. 3, nº 2. 01/12/1979), e por diversas cartas endereçadas ao Ministério Público Federal (2008), à Procuradoria Geral da República e também na Polícia Federal (2010) a exploração madeireira na TI Alto Turiaçú continua.
Em setembro de 2011, três anos antes deste recente conflito, o IBAMA fez uma operação na região aplicando mais de R$ 687,5 mil em multas, onde foram encontrados 20 trabalhadores em condições análogas à escravidão. No dia 16 de maio de 2010 Hubinet Ka’apor, 38 anos, foi brutalmente assassinado por madeireiros. Em março de 2011 mais um assassinato: Tazirã Ka’apor, de 20 anos.
Em dezembro de 2012, segundo dados da Fiocruz, depois da Polícia Federal apreender um caminhão de madeira ilegal em plena operação, com cartões obtidos na Prefeitura de Maranhãozinho que permitiam a entrada na TI, a PF indiciou o então prefeito da cidade, Josimar Cunha (PR), e mais dez pessoas por suspeita de participação das atividades madeireiras. Josimar negou a acusação.
As denúncias continuaram sendo feitas pelos indígenas em 2013. Em janeiro de 2014 um grupo de 10 indígenas que estavam em suas ações de autovigilância foram surpreendidos com tiros que atingiram as costas e as pernas de dois deles, além de a cabeça do cacique da aldeia. No mesmo mês, a pedido do Ministério Público Federal no Maranhão (MPF/MA), a Justiça Federal condenou (processo nº 2008.37.00.005728-5) o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a União a implantarem postos de fiscalização para coibir a atividade ilegal de devastação no interior das Terras Indígenas Alto Turiaçu, Awá Guajá e Caru, o que não ocorreu.
Em março outra ação de autovigilância resultou na expulsão de mais madeireiros e em junho de 2014, uma nova denúncia de ameaças envolvendo a participação de políticos de Centro do Guilherme (MA).
Em entrevista ao jornal A Folha de São Paulo (publicada em 10/09/2014), o representante da etnia, Itahu Ka’apor, afirmou que, diante da inércia do governo em protegê-los, os indígenas estão montando e treinando um exército próprio para defender suas terras. “Estamos em guerra. E nós enfrentamos [os madeireiros] mesmo, porque ninguém quer nos ajudar. A gente não aceita mais isso. A Funai nos deixou há meses, então resolvemos agir. Estamos fazendo o que o poder público deveria fazer”, disse à reportagem da Folha.
Ao serem obrigados a adotar táticas de autodefesa, os povos indígenas arriscam suas vidas para garantir a proteção dos seus territórios, diante da inércia do Estado em cumprir sua tarefa constitucional, esses povos estão sujeitos a retaliações como a que vimos contra os Ashaninka, mortos no final e agosto. Tudo isso é amplamente subsidiado pela falta de governança que, se já é ruim nos outros estados Amazônicos, no Maranhão parece ser ainda pior.
Infelizmente esse é o reflexo de uma crise marcada por interesses privados de grupos políticos e econômicos que se infiltram nas mais diversas esferas da máquina governamental, comprometendo o funcionamento de instituições públicas, os interesses coletivos da sociedade e ao próprio Estado de Direito.
“A superação definitiva do desmatamento ilegal e a construção de alternativas viáveis para o desenvolvimento sustentável na Amazônia passam necessariamente pelo fortalecimento da governança, dos indígenas e das populações tradicionais, os principais guardiões da biodiversidade amazônica”, disse Claudia Caliari, da campanha Amazônia do Greenpeace. “Se isso vem ocorrendo nessas áreas, que estão supostamente protegidas, a gente pode imaginar o que está acontecendo nas áreas que não são resguardadas”, completa.
Não podemos esperar o processo se tornar irreversível, a hora de mudar é agora. Cabe ao Governo Brasileiro e a Funai decidirem se esperam pelo pior ou se garantem a efetividade da proteção destas pessoas e suas terras.

Fonte: Greenpeace 

Apoiadores de Dilma tentam criar imagem de candidata indigenista e ambientalista


A entrada em cena da candidatura de Marina Silva (PSB) à Presidência e o seu crescimento nas pesquisas eleitorais fizeram com a equipe de campanha da candidata e presidente Dilma Rousseff (PT) partissem para o ataque para a desconstrução da imagem da ex-ministra do Meio Ambiente.  A ofensiva resultou numa pequena queda de Marina nas pesquisas, suficiente para um cenário mais favorável à Dilma no primeiro turno e de empate de Dilma com Marina no segundo turno. 

Mas, para além da demonização de Marina, parece que os apoiadores de Dilma resolveram agora dar um verniz verde ou uma tintura de jenipapo para a candidata petista. Pelas redes sociais, Dilma tem sido pintada como uma candidata ligada às causas ambientais e indígenas, mais vistas como próximas de Marina, ainda que para ambas esta imagem esteja muito mais na esfera do imaginário do que no mundo concreto.

Dilma indígena
Ainda que a palavra “indígena” nem apareça no programa da candidata Dilma Rousseff e seu governo tenha suspendido a demarcação de terras indígenas em todo país, atendendo a interesses de setores ruralistas, a criação de uma Dilma defensora desta causa tem sido sempre evocada nas redes sociais, embora nem sempre com a adesão esperada de simpatizantes, acabando resultando, às vezes, no inverso: o surgimento da crítica à política indigenista da petista.

Um exemplo disto ocorreu no Facebook: a famosa foto da então guerrilheira Dilma Rousseff ganhou colares de sementes e um cocar de penas da apoiadora Maria Rejane Reinaldo. Logo após a publicação, a “guerreira indígena Dilma” , logo ganhou um comentário da seguidora Kalu Chaves:  “Mas a Dilma não entende nada de índio, menina!” . A autora da ilustração responde com um “ririririrririririrri”.


Já uma foto da Presidente com lideranças, durante uma única reunião com indígenas durante todo o seu mandato, ocorrida durante as mobilizações de junho e julho de 2013, acabou sendo usada por suposto “Comitê Indígena Dilma Presidente”, com se fosse um material de campanha. Sônia Guajajara, da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), uma das lideranças presentes na foto retrucou: “E não faço parte de comitê nenhum!!! Essa reunião aí aconteceu em outro contexto e não comercial pra campanha!!!”


Socioambientalistas da Dilmal
O esforço para criar uma imagem verde de Dilma prosseguiu no último fim de semana, com um evento de supostos socioambientalistas com a presidente Dilma, com a presença de Leonardo Boff.  Na “foto oficial” do evento, vinculada na propaganda de apoiadores da candidata, aprecem a Ministro do Meio Ambiente Izabella Teixeira, o ministro licenciado da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho e a ministro do desenvolvimento social e combate a fome, Thereza Campello. 

A ausência de figuras de peso para além de Leonardo Boff e ministros e a falta de intimidade desses com tema acabaram gerando uma irônica  fotografia no evento, em que o nome da candidata à presidência formado pelas letras das camisas aparece como Dilmal.


Justiça paralisa usina São Manoel e ordena consulta prévia aos índios

Usina é uma das 3 em andamento na bacia Tapajós-Teles Pires que afeta povos indígenas e, assim como todas as outras, desrespeita a Convenção 169 da OIT

A Justiça Federal no Mato Grosso suspendeu novamente o licenciamento da usina São Manoel, no rio Teles Pires, a pedido do Ministério Público Federal (MPF) dessa vez pelo descumprimento da obrigação da consulta prévia, livre e informada prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A ordem judicial dá prazo de 90 dias para que o governo realize a consulta, que deve abranger os povos indígenas Kayabi, Apiaká e Munduruku, todos afetados diretamente pelo empreendimento. A barragem de São Manoel está planejada para menos de um quilômetro dos limites da Terra Indígena Kayabi, vai afetar as aldeias Munduruku do Teles Pires e são previstos impactos severos sobre populações de Apiaká em isolamento voluntário. Para o MPF, o licenciamento tem graves irregularidades.

Essa é a quinta vez que usina é paralisada por desrespeitar direitos das populações atingidas. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) chegou a informar à Justiça, erradamente, que tinha sido feita consulta prévia para São Manoel. “A mera divulgação da decisão de realizar a a obra aos povos afetados não se confunde com o direito de consulta previsto na Convenção 169 da OIT. Houve violação do direito fundamental de consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas afetados pela UHE São Manoel”, afastou o juiz Ilan Presser da 1ª Vara Federal de Mato Grosso.

O juiz afirmou que, com a liminar, “impede-se que as questões discutidas nos presentes autos se resolvam em futuras compensações meramente patrimoniais, diante da irreversibilidade da construção do empreendimento, com a consumação de um etnocídio, culminando-se em crônica de uma tragédia anunciada”.

O direito das comunidades indígenas de serem consultadas quanto ao aproveitamento dos recursos hídricos em suas terras também tem previsão constitucional, no artigo 231 da Constituição Brasileira. A mesma previsão consta na Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, nos seus artigos 19 e 32, em que é reiterada a necessidade do consentimento livre, prévio e informado dos povos antes de os Estados tomarem decisões que possam afetar seus interesses.

A liminar cita a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos que, em diversos casos, reafirma a necessidade de materializar os direitos de consulta e participação dos indígenas mediante consentimento prévio e informado. Para o juiz, o sentido da Convenção 169 e da Constituição brasileira é de, a partir do exercício do direito de consulta, seja permitida a preservação e fomento do multiculturalismo; e não a produção de um assimilacionismo e integracionismo, de matriz colonialista, impostos pela vontade da cultura dominante em detrimento dos modos de criar, fazer e viver dos povos indígenas.

“O Estado brasileiro decidiu construir a UHE São Manoel. O Ibama já concedeu a licença. E, antes dessa decisão, manifestamente relevante para as comunidades afetadas, não houve a observância do direito de consulta. Do cotejo do comportamento do Brasil com a jurisprudência da CIDH, fica autorizada a conclusão de que o descumprimento do direito de consulta livre, prévia e informada pode, inclusive, gerar a condenação da República Federativa do Brasil em instâncias internacionais”, diz a liminar.

Processo nº 0014123-48.2013.4.01.3600
Íntegra da Liminar
Íntegra da ação

Fonte: Ministério Público Federal no Pará - Assessoria de Comunicação

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ministério de Minas e Energia adia leilão de energia de São Luiz do Tapajós

Usina de São Luiz do Tapajós irá gerar mais de 8 mil megawatts (MW), com entrada em operação em 2019.
Mapa: Juan Doblas
Eduardo Rodrigues*
Ministério de Minas e Energia (MME) revogou a portaria que definia as diretrizes para o leilão de compra de energia da Usina São Luiz do Tapajós, que estava marcado para o dia 15 de dezembro.
De acordo com nota da pasta, a decisão será publicada amanhã no Diário Oficial da União.
De acordo com o MME, o Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) e o Estudo de Impacto Ambiental e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) haviam sido concluídos pelo consórcio desenvolvedor dentro dos prazos acordados, mas a revogação da portaria foi motivada pela necessidade de adequações aos estudos associados ao tema do componente indígena.
Isso significa que o leilão do maior empreendimento de geração de energia integrante do planejamento do governo Dilma Rousseff em 2014 corre o risco de ser adiado para o próximo ano, devido à questão indígena.
A usina de São Luiz do Tapajós irá gerar mais de 8 mil megawatts (MW), com entrada em operação em 2019. O MME não informou uma nova data para a realização do leilão.
Fonte: Agência o Estado (Mapa não incluído na matéria original)

Líder do MST diz que se Marina for eleita haverá protestos diários


Um dos líderes nacionais  do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), João Pedro Stedile ameaçou ontem fazer “protestos diários” em frente à Petrobras caso a candidata Marina Silva (PSB) se eleja presidente do Brasil. Ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, discursando para um público de cerca de 2 mil pessoas, Stedile atacou a principal adversária de Dilma Rousseff (PT).

“Queremos que pare a terceirização, que parem os leilões. A ‘dona Marina’ que invente de colocar a mão na Petrobras, que voltaremos aqui todos os dias (em protesto)”, afirmou Stedile. Nos ataques, o líder do MST também aproveitou para se referir a Marina como “aquela candidata que recua todo dia”. “Quem aqui deixa se enganar por ela? Ela quer ou não quer entregar o pré-sal?”, indagou.

Já o ex-presidente Lula evitou dizer o nome de Marina, apesar de não ter poupado a adversária. “Mas posso dizer que sou contra a candidata que faz oposição a Dilma. Porque ela vai terminar mostrando as inconsistências de um programa de governo feito a 500 mãos”, criticou Marina Silva.

Vestindo o casaco laranja da Petrobras, Lula discursou durante 23 minutos em frente à sede da petroleira na Cinelândia, no Rio  de Janeiro, em uma manifestação organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT). 


“Estou presente aqui porque, quando surgem algumas denúncias de corrupção contra a Petrobras, muitas pessoas começam a ter vergonha de vestir o uniforme da empresa e eu insisto em fazer isso. Não tenho vergonha desta camisa, que deve orgulhar os trabalhadores e o povo brasileiro pelo que a Petrobras significa para país”, afirmou Lula, ao iniciar o pronunciamento.

Jovens protestam contra Kátia Abreu no Tocantins


Após usinas, rio Madeira (RO) tem a maior cheia da história; assista

A maior cheia já medida no Madeira, que elevou em 19 metros o rio na altura de Porto Velho, ocorreu pouco mais de dois anos após o início da operação das usinas de Jirau e Santo Antônio.
Santo Antônio (que fica 7 km acima da capital, Porto Velho) e Jirau (cerca de 100 km a montante) são usinas a “fio d’água”. Como a vazão média do Madeira é enorme, 32 mil m3/s, a água tem força para gerar energia mesmo sem um desnível significativo entre o topo da barragem e a saída das turbinas.
O vídeo abaixo explica como a chegada das duas usinas ocasionaram a maior cheia da história e afundou vilas inteiras na lama. A produção faz parte do Especial “Tudo Sobre a Crise Água”, publicado nesta segunda-feira.

Em janeiro, perto de Jirau, a vazão era de 40 mil m3/s, um recorde desde 1967 para essa época do ano no local. Na represa de Santo Antônio, que começa já no pé da barragem de Jirau, a subida da água ameaçava Jaci-Paraná.
Além de Cujubinzinho e São Carlos, abaixo de Santo Antônio, foi afetada a orla de Porto Velho. Acima de Jirau, na fronteira com a Bolívia, sofreu a vila de Abunã.
A Defesa Civil de Rondônia estima que mais de 20 mil pessoas tenham sofrido o impacto direto da enchente.
Na maior cheia já medida na região, em 1984, a vazão do rio chegou a 48 mil m3/s. À época, não havia barramentos no Madeira, e a imprensa mostrou que a água atingiu o telhado das casas de Jaci-Paraná.
Para Antônio de Pádua Guimarães, diretor da Santo Antônio Energia, isso mostra que a vulnerabilidade do local não está ligada à criação do reservatório.
Dilúvio Trissecular
A estratégia das usinas para regular a vazão do rio se baseia na probabilidade de uma certa cheia ocorrer a cada período. Capazes de suportar uma vazão de 80 mil m3/s, Santo Antônio e Jirau oferecem proteção “decamilenar” (uma cheia desse porte a cada 10 mil anos).
Segundo esse critério, a enchente deste ano foi “trissecular”, com risco teórico de repetir-se a cada 300 anos. Essa cheia fenomenal veio pouco menos de dois anos após a operação das usinas.
Dias Nunes diz que essas probabilidades devem entrar no cálculo de risco, mas que o histórico de medidas precisas no Madeira é curto –começou em 1967. “Uma certa segurança seria uma série histórica de cem anos”, diz.
A margem de erro de qualquer projeção também deveria aumentar agora, pois o aquecimento global e seus efeitos regionais são um componente a mais de incerteza.
Carlos Hugo de Araújo, da Santo Antônio Energia, considera vaga a demanda acadêmica de que a mudança climática seja levada em conta na gestão de risco em hidrelétricas. “A coisa entra num terreno muito especulativo. Ao trazer o macro para discutir o micro, fica difícil estabelecer uma conexão.”

Fonte: Folha de São Paulo

No twitter...


Conheça as propostas dos candidatos à Presidência para o setor de energia

Por Carolina Gonçalves*

As fontes de energia renováveis ganharam destaque especial entre as propostas de candidatos à Presidência da República no que se refere ao setor elétrico. Todos os presidenciáveis que incluíram propostas nessa área nos programas entregues à Justiça Eleitoral reconhecem a necessidade de aumentar a oferta em função do consumo crescente de energia, mas defendem que o país explore seus potenciais naturais para reduzir prejuízos ambientais e riscos de racionamento.

Conheça as propostas dos candidatos à Presidência para o setor de energia:

Aécio Neves (PSDB) promete incentivar distribuidoras e geradoras elétricas para instalação de unidades de geração de energia a gás natural e cogeração e viabilizar novas fontes de financiamento para o investimento e expansão do sistema elétrico brasileiro. Ele promete estimular a economia de baixo carbono e reorientar a matriz energética, buscando diversificar as fontes de energia. Aécio defende a ampliação da participação da energia solar e da energia eólica na matriz e o estímulo para que todos os setores econômicos adotem programas de eficiência energética e conservação de energia. Na valorização da diversidade de fontes, o presidenciável ainda propõe que sejam consideradas as características regionais na redefinição da matriz energética e, para atrair novas empresas e investimentos, o candidato promete criar um ambiente regulatório seguro e equalizar regras de incentivos, subsídios e financiamentos públicos para as diversas fontes de energia.

Dilma Rousseff (PT) garante que vai dar continuidade ao processo de expansão do parque gerador e transmissor para garantir a segurança do suprimento e a modicidade tarifária. Segundo ela, é preciso manter a qualidade da matriz energética brasileira, baseada em hidroelétricas e termoelétricas, fontes renováveis limpas e de baixa emissão de carbono, complementada por fontes alternativas, como a eólica, a solar e a originária da biomassa. Dilma promete dar prioridade à ampliação e modernização do parque de transmissão de energia instalado e apresenta um balanço dos últimos dez anos apontando a retomada da construção de usinas hidrelétricas e de linhas de transmissão.

Eduardo Jorge (PV) alerta, em seu programa de governo, que a expansão do sistema de produção de energia elétrica está causando problemas ambientais e sociais crescentes com o deslocamento de empreendimentos para a Amazônia e o uso das termelétricas que deveria ter caráter emergencial. Eduardo Jorge reconhece que o consumo de energia tende a crescer, mas defende que o aumento da oferta siga padrões de eficiência para não comprometer recursos naturais ou aumentar emissões de gases de efeito estufa. Ele é favorável à substituição das fontes que emitem mais carbono por fontes renováveis, como a hidráulica, a eólica, a solar e a biomassa moderna, que “além de poluírem menos, têm seu fornecimento perene, aumentando a segurança energética e reduzindo a dependência de custos com as importações”.

Eymael (PSDC) quer priorizar a ação do governo federal em infraestrutura nacional, incluindo a geração de energia como uma das prioridades, ao lado da construção de estradas, ferrovias e do sistema portuário.

Levy Fidelix (PRTB) acredita que a capacidade de fornecimento de energia pode ser ampliada a partir do aproveitamento do potencial hídrico amazônico e a implantação de pelo menos dez novas usinas atômicas espalhadas pelo país. Fidelix também é favorável a avançar no aproveitamento de energias renováveis e defende o barateamento dessas fontes.

Luciana Genro (PSOL) destaca o setor energético como fator crítico da soberania e do desenvolvimento de qualquer país. A candidata ataca a política adotada pelos governos tucano e petista nesse setor afirmando que ambos transformaram um “sistema público, planejado e cooperativo, em um sistema privado, mercantil, concorrencial, caro, ineficiente e devastador do meio ambiente”.

Marina Silva (PSB) afirma que vai retomar o planejamento de médio e longo prazos e investir em fontes modernas, limpas e renováveis. A ambientalista afirma que é preciso aumentar a oferta para permitir o crescimento econômico e afastar constantes riscos de racionamento. Segundo ela, o Brasil é um dos únicos países do mundo que podem ter uma matriz elétrica otimizada segura e competitiva do ponto de vista socioambiental. Entre suas promessas de governo, Marina afirma que vai ampliar a participação da eletricidade na matriz energética, aumentar a proporção de energias renováveis e reduzir o consumo absoluto de combustíveis fósseis. A candidata ainda garante que vai alinhar interesses de geradores, distribuidores e consumidores e criar mecanismos de expansão do mercado livre de energia. Marina Silva também pretende recuperar a produção de biocombustíveis e garantir que 1 milhão de hectares de concessões florestais tenham fins energéticos.

Mauro Iasi (PCB) se compromete a estatizar setores estratégicos e a reverter as privatizações da área de energia, assim como propõe nos casos de comunicação, mineração, recursos naturais, transporte e logística de distribuição e produção.

Pastor Everaldo (PSC) quer revisar o modelo de partilha adotado para a exploração de petróleo no país, mas promete cumprir os contratos que estão vigorando. O candidato prefere desestatizar o setor e abrir mercado para produção e distribuição de energia, buscando variedade de matrizes para baratear o serviço. Everaldo destaca o potencial brasileiro em relação a fontes solar, hidrelétrica, eólica, nuclear e biomassa.

Zé Maria (PSTU) afirma que o setor de energia é estratégico para o desenvolvimento do país. Mas ressalta que nas mãos das grandes construtoras, empreiteiras e grupos internacionais, a preocupação não é garantir energia para o povo brasileiro, mas com seus lucros. Para o candidato, reestatizadas e sob o controle dos trabalhadores, essas empresas estariam a serviço dos interesses e da necessidade dos trabalhadores. Ele defende a reestatização completa do setor de energia elétrica, privatizado pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, e mantido pelos governos do PT.

Rui Costa Pimenta (PCO) não apresentou proposta específica sobre o tema.

*Fonte: Agência Brasil Edição: Lílian Beraldo

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A não gente que não vive no Tapajós

A extraordinária saga de Montanha e Mangabal, da escravidão nos seringais à propaganda do governo que pretende botar uma hidrelétrica na terra que habitam há quase 150 anos
Fotografia: Lilo Clareto

Por Eliane Brum*

De repente, a comunidade de Montanha e Mangabal apareceu no noticiário. Em 27 de agosto, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, anunciou em cerimônia que o governo federal destinaria “3,2 milhões de hectares para reforma agrária e preservação ambiental” na Amazônia. Entre os destinos dessa terra é citada a criação do “Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Montanha e Mangabal”, no município de Itaituba, no Pará. O anúncio foi destacado no “Muda Mais”, um “site de apoio à candidatura à reeleição de Dilma Rousseff”, num momento em que a presidente era criticada por sua política para a Amazônia. Dias depois, o governo marcou para 15 de dezembro a data do leilão de São Luiz do Tapajós, a primeira das grandes hidrelétricas planejadas para a região. Vale a pena botar uma lupa sobre esses dois nomes bastante enigmáticos – Montanha e Mangabal – para fazer a necessária relação entre as notícias produzidas pelo governo em momento eleitoral e ampliar a compreensão sobre o trato da Amazônia. Na comunidade de Montanha e Mangabal está contida a extraordinária luta de um povo para tornar-se visível para o Brasil que o desconhece. E, ao existir para os olhos do país, preservar sua terra e sua vida.
O povo de Montanha e Mangabal enfrenta hoje o momento mais crítico em quase 150 anos de uma trajetória povoada por épicos. Se o Complexo Hidrelétrico da Bacia do Tapajós for implantado, como Dilma Rousseff pretende, ele será passado. No território em que vive a comunidade, assim como outras populações ribeirinhas e indígenas, está sendo gestada a mais acirrada luta socioambiental depois de Belo Monte. É nas margens do Tapajós que será decidido o próximo capítulo do que é o futuro, para o Brasil. E também se povos como o de Montanha e Mangabal estarão nele.
Seguir a trajetória de homens e mulheres ao longo de 70 quilômetros das águas azuladas do Tapajós, um dos mais belos rios do mundo, é uma aula de anatomia sobre a ocupação da Amazônia. É também testemunhar uma das vitórias mais bonitas de um povo que construiu sua memória pela oralidade no mundo da palavra escrita. Uma vitória sempre provisória, como eles têm aprendido desde que os primeiros “pesquisadores” – biólogos, arqueólogos, antropólogos, sociólogos etc – apareceram com a missão de fazer o levantamento da área para a implantação das hidrelétricas de São Luiz do Tapajós e Jatobá.

No twitter...

A candidata à Presidência, Luciana Genro (Psol), narra sua experiência em Santarém. 


domingo, 14 de setembro de 2014

Reitores das universidades federais anunciam apoio a Dilma e são repudiados por Sindicato dos Docentes


A candidata à reeleição à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT) recebeu no último dia 11 apoio de 54 dos 58 reitores das universidades federais. Os reitores das universidades de Brasília, de Minas Gerais e a Unifesp não assinaram o documento de apoio a reeleição da presidente Dilma.

O documento, além de declarar apoio, faz uma série de reivindicações, entre elas o não contingenciamento de orçamento da educação, ciência, tecnologia e inovação, e pede atenção à educação nas regiões Norte e Nordeste, assim como interiorização do ensino público e ressalta que "essas mudanças ocorrerão com maior segurança e sem perder o rumo com a presidente Dilma".
No dia 12 de setembro, a diretoria do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andes-SN) divulgou  nota de indignação e repúdio  à ação dos reitores em apoiar Dilma.
Para a diretoria do Sindicato Nacional, os reitores, neste ato “demonstram que abriram mão de representar as instituições que dirigem, função que exige o respeito à autonomia universitária consagrada na Constituição Federal, para serem cabos eleitorais de candidatura à presidência da república. Isto é uma ação anti-republicana e antiética”.
Confira aqui a moção.

Com informações da Agência Estado e do Andes.

Leilão da usina de São Luiz do Tapajós: o governo mentiu para os Munduruku

Fotografia: Agência Brasil

Indígenas Munduruku exigem que o governo revogue a decisão de realização de leilão da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós em dezembro e que seja realizada a consulta prévia aos ameaçado de acordo com a Convenção 169 da OIT

Carta do povo Munduruku ao governo federal

Nós Munduruku estamos indignados com o governo. Nos dias 2 e 3 de setembro, guerreiros e guerreiras Munduruku e outras populações ameaçadas pelo projeto de construção de usinas no rio Tapajós, tiveram uma reunião com o governo federal, representado por pessoas da Advocacia Geral da União, Ministério do Planejamento, Secretaria Geral da Presidência da República, FUNAI, Ministério da Justiça e Ministério de Minas e Energia. A reunião foi convocada pelo governo para discutir a Consulta Prévia, Livre, Informada e Consentida prevista na Convenção 169 da OIT, depois que a Justiça Federal obrigou o governo a cumprir a Convenção.

Os Munduruku explicaram ao governo que estavam preparando uma formação sobre a Convenção 169, porque o assunto é muito complexo, e que só depois disso vão decidir quando e como será feita a consulta. Este é o direito que temos, garantido pela Convenção 169, e o governo se comprometeu de fazer o dialogo com nós de acordo com OIT e respeitar a nossa decisão no  processo de dialogo.

Na sexta feira dia 12 de setembro, ficamos sabendo que o governo publicou no Diário Oficial da União que fará o leilão da usina de São Luiz do Tapajós no dia 15 de dezembro deste ano.

Ficamos muito bravos com o fato de a presidente Dilma, o Gilberto Carvalho, o Paulo Maldos, o Nilton Tubino, o Tiago Garcia, representantes de ministérios e outras autoridades dizer que iam respeitar o direito do povo Muduruku, e depois parece que este compromisso não vale nada. Agindo assim  o governo não esta cumprindo suas  palavras, não está agindo com boa fé e não está respeitando a Organização Internacional do Trabalho.

Sabemos que a consulta é previa e deve ser feita antes de qualquer decisão sobre a usina. Como o governo quer fazer o leilão em dezembro? O governo mentiu para os Munduruku? O governo está jogando no lixo a Convenção 169 da OIT? O governo não tem palavra, não tem honra? O que o governo tem a nos dizer?

Mais uma vez o governo demostra que não quer fazer dialogo com nós. Exigimos que seja anunciado no Diário da União que o leilão não vai ser feito e que será realizada a consulta livre, prévia, informada e consentida com o povo Munduruku e todos os ribeirinhos e demais populações que estão ameaçadas pelo projeto das usinas no rio Tapajós, como prevê a Convenção 169. Exigimos que o governo cumpra o acordo que fez conosco, e que não se comporte como traidor, enganador e mentiroso em um assunto que diz respeito à sobrevivência e dignidade do nosso povo.

Movimento Munduruku Ipereg Ayu, Jacareaganga, 13 de setembro de 2014
Sawe!!!!!!

Leia também: O Globo: Governo marca leilão para hidrelétrica no Rio Tapajós, mas não consulta Funai

Dilma dá tiro no próprio pé ao culpar Marina por atraso em hidrelétricas

Por Leonardo Sakamoto*
Quando grandes empreiteiras, bancos e outros doadores de campanha estão interessados na implementação de políticas, elas acontecem. Refinanciamento de dívidas surgem ou grandes obras acabam saindo do papel na velocidade que for melhor para eles. Estudos de Impactos Ambientais e Relatórios de Impactos Ambientais picaretas são produzidos ou ignora-se os decentes. Rasga-se a necessidade de audiências públicas para ouvir as comunidades atingidas, deixa-se de lado medidas compensatórias e de mitigação. A fiscalização do trabalho é engessada.
Dilma considera “demora'' o tempo necessário para estudo, análise e discussão pública de uma grande obra que vai causar impactos profundos sociais e ambientais? Processo esse que deveria ser feito com calma e no tempo necessário e não pautado pela pressa das grandes empresas de infraestrutura e mineradoras.
Do que adianta descer o sarrafo nos bancos na campanha eleitoral se, ao mesmo tempo, abraça e faz cafuné em empreiteiras?
Uma candidatura que se diz de esquerda deveria questionar o porquê de grandes obras descumprirem direitos básicos da população e nada acontecer com seus responsáveis.
Pois a crítica dos movimentos sociais é exatamente na direção contrária: que não só as usinas do Madeira, mas também todo o processo de liberação para construção de hidrelétricas no Brasil passa por cima de tudo e de todos e é feito a toque de caixa.
Por exemplo, no início do mês, o governo federal se reuniu com o povo Munduruku para discutir a consulta a respeito da construção de hidrelétricas no rio Tapajós (a próxima bomba-relógio armada por este governo). Tudo seria feito de acordo com a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho, que obriga governos a ouvirem a população local no caso desse tipo de empreendimento.
Contudo, foi publicado, nesta sexta, no Diário Oficial da União e relatado pela imprensa, que o governo fará o leilão da usina de São Luiz do Tapajós no dia 15 de dezembro. Ou seja, isso significa que não haverá tempo suficiente para audiências decentes e que o governo quebrou sua palavra e corre o risco de levar um puxão de orelha por desrespeitar a convenção da OIT.
A política de construção de hidrelétricas no Brasil é estruturada na base do medo. Não se investe o que se deveria na troca por geradores mais potentes e na extensão de linhas de transmissão para diminuir as perdas e interligar o sistema. Investe-se pouco em energias alternativas. Ignora-se em qualquer planejamento que a mudança climática afetou de forma definitiva nosso regime hídrico e, portanto, nossa capacidade de geração. E, quando a bomba estoura sob risco de apagão ou no aumento do custo da megawatt/hora, impõem-se uma chantagem barata:
“Olha, vocês têm que escolher: ou sacrificamos algumas comunidades e ecossistemas ou não vai ter energia para vocês verem o último episódio de A Grande Família na TV.''
Para defender a usina hidrelétrica de Belo Monte, que é a principal joia do Programa de Aceleração do Crescimento, o governo federal tergiversou, escondeu, mentiu. Em 2011, fui convidado a integrar, no papel de relator, uma comissão especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), que verificou as violações aos direitos humanos no Pará. Visitamos a região de Belo Monte, ouvimos as populações impactadas pelo projeto.
Entre as recomendações do relatório que apresentei no ano seguinte, estavam ouvir as comunidades, cumprir as condicionantes ambientais e indígenas, apurar denúncias de intimidação, invasão de propriedades e indução de assinaturas de contratos. Infelizmente, o relatório não levou a nenhuma mudança concreta.
Pelo contrário, até trabalho escravo de adolescente em prostíbulo que atendia os empregados de Belo Monte (impacto que é previsto em qualquer obra desse tipo) ocorreu.
Ao fazer esse tipo de reclamação, Dilma não traz nada de novo sobre a sua visão de mundo. Até porque é sabido que ela defende com unhas e dentes um modelo de desenvolvimento que se assemelha, e muito, àquele que foi levado à cabo durante a ditadura contra a qual ela bravamente lutou e que a insistentemente torturou.
Com essa declaração, ela além de despertar o desprezo de quem abomina o nacional-desenvolvimentismo hardcore, levantou a moral de Marina, que teve confirmada, pela própria adversária, que possui sim, preocupação socioambiental. Ainda que a própria gestão da Marina à frente do Ministério do Meio Ambiente tenha sido questionável em muitos pontos, Dilma serviu de cabo eleitoral no sentido de reforçar a imagem de Marina como portadora de outros valores além do “progresso'' a todo custo.
Para Dilma, esse comentário pode ser útil para conquistar o eleitor da “nova classe média'' (a.k.a. classe baixa com poder de consumo) que tem a (justa) preocupação de saber se vai haver energia para os eletrodomésticos que acaba de adquirir. Porque grandes empresas já conhecem seus clientes.
Pergunto-me se, neste momento em que Dilma está lutando para se reeleger e precisa mais do que nunca do trabalho da base de seu partido (o pessoal de esquerda, que faz corpo a corpo junto à massa, ao contrário dos emissários com nojo de gente que ocupam muitos dos gabinetes em Brasília), esse tipo de declaração realmente ajuda.
Pelo contrário, o que se viu nas redes sociais foi que Dilma conseguiu acender o ânimo de parte da militância de Marina que andava meio amuada desde o caso do recuo do programa de governo na área LGBT. E ainda reforçou a imagem do autoritarismo da cúpula petista, coisa que dificilmente traz voto.
Por fim, além de tudo isso, foi uma deslealdade porque Marina Silva engoliu muito sapo em nome da então ministra das Minas e Energia e hoje presidente da República. Tive a oportunidade de entrevistar Marina quando era ministra. Lembro que, na época, fiquei negativamente impressionado quando ela se mostrou muito mais aberta do que imaginava à liberação de projetos com grande potencial de impacto para a Amazônia – como as hidrelétricas do rio Madeira ou o gasoduto Urucu-Porto Velho. “Estamos fazendo uma discussão séria, bastante cuidadosa, considerando todos os aspectos. Busca-se o que é mais adequado do ponto de vista ambiental, social e econômico'', foi o que me explicou na época.
Esse tipo de embate entre ex-ministros não deveria ser utilizado em contexto de campanha. Porque fica a pergunta: se Marina era tão problemática, então por que Lula a manteve durante tanto tempo no cargo?

*Fonte: Blog da Sakamoto

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Sem licenciamento e consulta prévia, governo marca leilão para hidrelétrica de São Luiz do Tapajós

Com estudos ambientais precários e apenas protocolados no Ibama e sem a realização de consulta prévia aos povos indígenas e tradicionais da bacia do Tapajós, o governo Dilma Rousseff (PT) marcou para o próximo 15 de dezembro o leilão para a concessão para a iniciativa privada da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, a maior do chamado Complexo do Tapajós, no Pará.

A decisão está publicada no Diário Oficial da União  desta sexta-feira, 12 de setembro, que traz a Portaria n° 485/2014 do Ministério de Minas e Energia que determina que Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) promova “direta ou indiretamente o leilão de energia elétrica proveniente da futura hidrelétrica.

Atualizando a notícia (16 de setembro de 2014): Ministério de Minas e Energia adia leilão de energia de São Luiz do Tapajós

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

MPF/PA pede manutenção de prisões de quadrilha responsável por desmatamento na Amazônia

Alertas do sistema Deter na semana seguinte à operação Castanheira mostram a importância da ação contra quadrilhas dedicadas à grilagem e desmatamento
O Ministério Público Federal no Pará (MPF/PA) solicitou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) uma análise dos dados mais recentes de desmatamento no Pará, para medir o impacto da operação Castanheira, que investigou e prendeu preventivamente os integrantes de uma das maiores quadrilhas de grileiros e desmatadores em atuação na região. O resultado da operação é visível nos alertas do Deter, sistema que emite avisos para os fiscais quando os desmatamentos estão ocorrendo.

A operação ocorreu no dia 27 de agosto, quando a taxa de desmatamento em uma semana era de mais de 3.400 hectares. Na semana seguinte às prisões, o número despencou para menos de 900 hectares. E na primeira semana de setembro, o Deter registrou desmatamento zero, um evento muito raro, ainda mais em um mês de pleno verão amazônico, quando o desmatamento costuma ser mais alto. Enquanto em agosto a área desmatada pode ter chegado a mais de 33 mil hectares, em setembro, depois da operação e até agora, nenhum alerta foi registrado pelo monitoramento por satélite.

Os responsáveis pela investigação  além do MPF e Ibama, Polícia Federal e Receita Federal – avisam que outras quadrilhas que atuam com desmatamento e grilagem devem ser investigadas e presas, principalmente no Pará, onde ainda se concentra grande parte do desmatamento ilegal. Em pareceres enviados à Justiça Federal de Itaituba, onde corre o processo da operação Castanheira, o MPF opinou pela manutenção de oito pessoas presas. Outros seis integrantes da quadrilha que atuava na BR-163 estão foragidos e devem ser incluídos na Difusão Vermelha da Interpol, uma lista de procurados que é difundida para todas as polícias do mundo.

Entre os foragidos, um corretor de imóveis que atua no Paraná – vamos identificá-lo apenas pelas iniciais WAG - é um bom exemplo de como atuava a quadrilha e de como se dá atualmente o desmatamento na Amazônia. O acusado integrava o esquema negociando as terras desmatadas e griladas na região da BR-163. Ele fazia todo o trabalho de corretagem sem nunca pisar no Pará. Sem sair do Paraná, ele propagandeava as terras como boas para plantar soja ou criar gado e ainda baratas porque não foi concluído o asfaltamento da rodovia. Com a conclusão do asfaltamento, dizia aos potenciais clientes, as terras teriam grande valorização.

O acusado tentava demonstrar as vantagens do negócio aos clientes explicando que as terras que oferecia já tinham sido devastadas, com retirada total da vegetação e duas ou três queimadas. Ele dizia que a mão de obra na região era muito barata para se concluir o plantio. Quando os clientes perguntavam sobre a documentação das terras, ele deixava claro que não existiam escrituras, apenas contratos de gaveta. E ensinava o caminho para dar aparência de legalidade às terras griladas: fazer protocolo no cadastro do Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária), protocolo no cadastro do programa Terra Legal, inscrição no Cadastro Ambiental Rural e outras providências para “esquentar” os documentos. Com esse esquema, a quadrilha chegava a negociar fazendas por mais de R$ 20 milhões.

Os presos - inclusive os que foram encontrados em São Paulo, Paraná e Mato Grosso - foram trazidos para Belém. Na Justiça Federal de Itaituba, na divisa do pará com o Mato Grosso, eles devem responder a processos por invasão de terras públicas, furto, sonegação fiscal, crimes ambientais, falsificação de documentos, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Somadas, as penas de todos esses crimes podem ultrapassar os 50 anos de prisão.

Fonte: Ministério Público Federal no Pará - Assessoria de Comunicação


Leia também: 
Análise espacial mostra degradação ambiental em Altamira, recordista de desmatamento na Amazônia

Pará: PF cumpre mandados de prisão contra grileiros e desmatadores em Novo Progresso

Pará em chamas: áreas embargadas pelo Ibama são livremente queimadas na região da BR-163

Taxa de desmatamento aumenta 29% em um ano na Amazônia Legal

Por: Andréia Verdélio*
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou hoje (10) a taxa de desmatamento na Amazônia Legal no período de agosto de 2012 a julho de 2013. A avaliação consolidada mostra um crescimento de 29% em relação ao período anterior – agosto/2011 a julho/2012. O resultado final do mapeamento de 2013 apresentou uma taxa de 5.891 quilômetros quadrados (km²) desmatados , comparados a 4.571 km² do período anterior.

O valor é aproximadamente 1% acima do estimado pelo Inpe em dezembro de 2013, que foi de 5.843 km². O Prodes computa como desmatamento as áreas maiores que 6,25 hectares onde ocorreu remoção completa da cobertura florestal – o corte raso. O cálculo da taxa de desmatamento foi obtida após o mapeamento de 216 cenas do satélite americano Landsat 8/OLI.
A avaliação do Inpe mostra que essa é a segunda menor taxa de desmatamento na Amazônia Legal desde que o instituto começou a medi-la, em 1988, no âmbito do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes). De 2004 a 2013, a redução na taxa de desmatamento foi 79%. Naquele ano, o desmatamento foi 27.772 km² de florestas, quando foi criado o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal.
Os estados que mais desmataram no último ano foram o Pará, com 2.346 km²; o Mato Grosso, 1.139 km²; e Rondônia, com 932 km². O Prodes, o Projeto de Mapeamento da Degradação Florestal na Amazônia Brasileira (Degrad) e o Sistema de Detecção de Mapeamento em Tempo Real (Deter) formam o conjunto de sistemas para o monitoramento e acompanhamento do estado da Amazônia Legal.
Em agosto, o Inpe apresentou o mapeamento das áreas de degradação florestal na Amazônia Legal para os anos de 2011, 2012 e 2013. Foram apontadas áreas de 24.650 km², 8.634 km² e 5.434 km², respectivamente, que apresentaram algum estágio de degradação na região. As análises dos projetos permitem identificar o quanto da degradação florestal de determinado ano é convertida para corte raso nos anos seguintes.
Já o Deter é um levantamento rápido, feito mensalmente, que usa imagens que possibilitam detectar desmatamento com área maior que 25 hectares. Além disso, serve apenas para orientar a fiscalização em terra. Nos meses de junho e julho, 1.264 km² de áreas de alerta de desmatamento e de degradação na Amazônia foram identificados pelo sistema.
*Fonte: Agência Brasil – EBC - Edição: Marcos Chagas